| OS CICLOS ECONÔMICOS E A INTERFERÊNCIA SOBRE O MEIO AMBIENTE NA REGIÃO DA SERRA AZUL
CICLO DO PAU-BRASIL
A exploração do Pau-Brasil (Caesalpinia
echinata) visava a extração de toras
finas com peso de 20 a 30 quilos e que eram utilizadas
na produção de corantes para tecidos.
Sua exploração era considerada barata
pois envolvia alguns índios, pagos com bugigangas
tais como facões, espelhos e alguns utensílios;
a construção de uma feitoria para armazenagem
das toras e navios para o transporte. Como era encontrado
numa faixa litorânea relativamente estreita que
ia do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Norte, o Pau-Brasil
nunca ocorreu na região serrana do Rio de Janeiro
não tendo sido portanto motivo para o seu desmatamento.
O primeiro contrato para exploração do
Pau-Brasil, foi assinado em 1503 e o ultimo registro
de sua exportação foi em 1887 quando sua
importância já estava decadente devido
a descoberta da anilina extraída do carvão
de pedra a um preço muito mais baixo. Devido
à exploração desenfreada e a falta
de plantio de novos exemplares, o Pau-Brasil foi levado
quase à total extinção.
CICLO DA CANA DE AÇÚCAR
O açúcar foi introduzido na Europa no século X , sendo a Sicília seu principal ponto de distribuição. Considerado uma especiaria, seu comércio era restrito e utilizava-se como adoçante o mel de abelhas. Foram os portugueses que popularizaram o seu uso, produzindo-o primeiro na Ilha da Madeira e posteriormente na Ilha de São Tomé. Tal era o seu valor que em 1516 D. Manuel investiu na implantação de um núcleo açucareiro no Brasil.
A produção açucareira necessitava de mão de obra em quantidade e a construção de toda uma infra-estrutura necessária ao engenho. Surgia então uma sociedade com características próprias, a dos senhores de engenho. Esta nova riqueza da colônia despertou a cobiça de outros povos europeus e os holandeses que até então transportavam o açúcar brasileiro para ser refinado em Flandres viram extinguir esta fonte de renda quando a Espanha, país com o qual estava em luta, estendeu seu domínio sobre Portugal. Por isso decidiram produzir seu próprio açúcar numa colônia que viriam a fundar no nordeste do Brasil. A luta entre holandeses e luso-brasileiros durou 30 anos ficando conhecida como a guerra do açúcar. Ao serem expulsos do Brasil os holandeses passaram a cultivar a cana de açúcar em seus domínios nas Antilhas, colocando o produto no mercado europeu por um preço abaixo do que os portugueses pediam para o açúcar brasileiro. Conseguiram assim, mesmo vencidos no Brasil, derrotar o monopólio português de produção e comércio. Ao passo que o açúcar antilhano ganhava o mercado europeu, aumentava a avidez da coroa portuguesa pelo ouro brasileiro. O açúcar entrava em declínio e um novo ciclo econômico tinha início.
CICLO DO OURO
Os governantes portugueses encontraram nos bandeirantes poderosos aliados na procura de ouro e pedras preciosas, estes formavam as expedições com recursos próprios e partiam desbravando os sertões brasileiros, abrindo caminhos, fundando vilas e finalmente descobrindo as minas.
O ciclo do ouro e da mineração fez com que a ocupação do nosso território se expandisse e muitos núcleos de povoamento surgiram, dando origem a diversas cidades. A produção de Minas Gerais era transportada pelos tropeiros que pelo “caminho novo” galgavam a serra do Couto e desciam sua encosta em busca da baixada chegando ao atual município de Duque de Caxias na localidade de Xerém, encaminhavam-se então à Baía de Guanabara onde de barco transportavam a carga até o “cais dos mineiros” onde é hoje o 1° Distrito Naval.
Até então nossa região não era mais do que mera passagem e os pequenos povoados existentes não haviam provocado um impacto significativo no meio ambiente.
Na Segunda metade do século XVIII, a indústria do açúcar, decaída em relação à mineração, reconquistou a primazia da economia. O litoral perdeu a hegemonia para o planalto, e no Rio de Janeiro o número de engenhos de açúcar e aguardente aumentou consideravelmente.
No vale do rio Santana, provavelmente em 1771, Manuel de Azevedo Matos junto com sua família iniciou a construção da sua primeira moradia. As casas de taipa foram levantadas com paredes rústicas de varas de taquaruçu palmeadas de barro entre as malhas de cipó; e o teto de cobertura de palha de palmeira, pindoba ou sapê, abundantes na região. Acomodados, provisoriamente, começaram a limpar as cercanias para a plantação; e, em seguida, a derrubar e transportar os troncos de madeira de lei necessários para a casa definitiva. Nos morros do Boa Vista, do Tinguá e do Santana encontraram o óleo vermelho, o jacarandá tã, o arco de pipa, o pau paraíba o cauda de veado, a sucupira e outros medrados em terra boa; e o guarachachi, a peroba, a caviúna, o tapinhoã, a arucurana, a cangerana, a guaraúna, o ipê e outros de terra média; e o murici, o pau canudo (pereira), a taquara de lixo, o cipó-timbó e outros característicos de terra ruim.
Nesta fase o desmatamento não foi tão agressivo, pois a produção da lavoura da região visava mais suprir as necessidades próprias e a ocupação humana ainda era pequena.
CICLO DO CAFÉ
O café começou a despontar no meado do século XVIII, e já no seguinte estava em pleno apogeu no Vale do Paraíba. Com sua expansão os engenhos e as fazendas passaram a dividir os campos com os cafezais e canaviais. O café era mais lucrativo que a cana e exigia menor investimento para o plantio, manutenção e produção; no transporte era mais resistente às avarias e perdas pelos precários caminhos então existentes.
Estimulado pelo Príncipe Regente D. João, o café desceu o Morro da Tijuca e espalhou-se pelo Vale do Paraíba, conquistando logo as terras fluminenses e mineiras. Os fazendeiros enriqueciam rapidamente, chegando a produção brasileira a atingir entre 1821 e 1825 a 487.594 sacos de cinco arrobas; e a proporção que crescia, aumentava o consumo mundial.
O café, porém, à medida que enriquecia o fazendeiro, empobrecia suas terras, principalmente as fluminenses, montanhosas e íngremes, onde a derrubada das florestas, desordenadamente, para o seu plantio, favorecia as erosões. O desnudamento dos terrenos montanhosos com a perda da camada fértil e a erosão produzida pelas chuvas tropicais, provocava a queda da produção dos cafezais e o seu enfraquecimento fazia com que as pragas devastassem o que restava. Com isso a política reinante era de cada vez mais se desmatar e iniciar novos cafezais promovendo-se assim a total devastação das nossas matas.
Na Segunda década do século XIX, a “erva de passarinho” instalou-se nos cafezais maltratados, alastrando-se levada pelo vento. A erva sugava a seiva do cafeeiro enquanto a saúva cortava-lhe as folhas, pragas que os governos procuravam combater desde 1835. Como se isso não bastasse, em 1861, apareceu a praga das borboletas, o que obrigou o Governo Provincial a mandar instaurar inquérito em Vassouras para avaliação da extensão do “mal que ameaçava os cafezais, de onde saíam as principais rendas do Império e da Província”. No ano seguinte o Governo informava que os cafezais com mais de vinte anos estavam irremediavelmente perdidos pela praga das borboletas.
O ciclo cafeeiro consistia em arrancar do solo virgem o máximo em menor tempo possível; e nesse afã em procurar meios para aumentar a produção ou substituir a perdida pela exaustão do solo, os fazendeiros derrubavam as matas na ânsia de obter terras produtivas, destruindo-as, já de início, pela queima indiscriminada da madeira, branca ou de lei, malbaratando bens incalculáveis e prejudicando o solo fértil, pelo destocamento que favorecia a erosão e pela queimada cujas cinzas reduziam sobremaneira a fertilidade. Um cafezal exigia terras virgens e quatro anos para produzir; e, se bem tratado e em solo propício, poderia dar frutos por quase meio século. Mas isso era impossível, baseado em derrubadas de mata, plantio desordenado e à mercê das pragas, além da necessidade de empréstimo para compra de escravos, resultando a mesma série de sucessos e insucessos.
Antes da abolição da escravatura os fazendeiros paulistas começaram a importar mão de obra imigrante, no que não foram imitados pelos fluminenses, que não acreditavam no fim do cativeiro. Depois da Lei Áurea, a decadência das fazendas do Vale do Paraíba foi completa e a miséria tomou conta da maioria dos escravos e dos fazendeiros. O cafezal abandonado, sem colheita e sem capina, foi sendo invadido pelo mato, ensejando a proliferação das pragas.
Teve início então a recuperação das matas a partir das sementes e mudas remanescentes ou trazidas pelos dispersores naturais dos pontos onde havia alguma vegetação nativa e levaram cerca de 50 anos até atingirem o estágio de clímax.
Durante este período, final do século XIX e primeiras décadas do século XX a região conhecida hoje como Serra Azul, foi ocupada por pequenas propriedades e alguns hotéis, que atraíam turistas pelo seu clima ameno e saudável.
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